quando o marketing transforma remédio em lifestyle
A tadalafila virou febre — mas os riscos de misturá-la com álcool, energéticos e desinformação podem custar caro

Um remédio desenvolvido para devolver a intimidade a quem precisa agora estampa latinhas de energético, inspira músicas de forró e virou símbolo de virilidade entre jovens que sequer têm disfunção erétil. O que era tratamento médico tornou-se peça de marketing — e a conta pode chegar no pronto-socorro.
A marca Baly acaba de lançar, para o Carnaval de Salvador 2026, uma edição limitada batizada de “Tadala”. O slogan não deixa dúvidas: “O azulzinho mais saboroso do Brasil” e “O Baly que te leva pra cima”. Trocadilhos à parte, o produto escancara uma tendência preocupante: a glamourização de uma substância de uso controlado como se fosse inofensiva.
E não estamos falando de poucos comprimidos. Dados da Anvisa mostram que as vendas de tadalafila no Brasil praticamente triplicaram em quatro anos — de 21,4 milhões de caixas em 2020 para mais de 62 milhões projetadas em 2024. A tadalafila ficou entre os cinco medicamentos mais vendidos do país, gerando receita superior a R$ 1,2 bilhão.
O que a tadalafila faz (de verdade)
Vamos ao básico: a tadalafila é um inibidor da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5). Traduzindo — ela bloqueia uma enzima que “atrapalha” a ereção, permitindo que os vasos sanguíneos relaxem e o sangue preencha os corpos cavernosos do pênis.
É como abrir a torneira de uma mangueira que estava parcialmente obstruída. O fluxo aumenta, e a ereção acontece.
Mas há um detalhe que muita gente ignora: o comprimido não cria desejo. Sem estímulo sexual, nada acontece. A tadalafila é um facilitador, não um mágico.
As indicações aprovadas são três: disfunção erétil, hiperplasia prostática benigna (próstata aumentada) e hipertensão pulmonar. Ponto. Não existe indicação para ganho de massa muscular, pré-treino de academia ou performance em festas — por mais que músicas, memes e agora energéticos sugiram o contrário.
A fantasia do pré-treino e a realidade dos riscos
A teoria que circula nas academias é sedutora: a tadalafila relaxa os vasos sanguíneos, então mais sangue chegaria aos músculos durante o treino, gerando hipertrofia. Parece lógico. Só que não funciona assim.
Os poucos estudos que avaliaram essa hipótese envolveram grupos pequenos e não encontraram benefícios significativos. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Medicina do Esporte classificou o uso como “indevido e perigoso”, pois mascara sinais de alerta do corpo e pode sobrecarregar o coração durante exercícios intensos.
Em setembro de 2025, a Anvisa emitiu um comunicado urgente destacando que o uso recreativo de tadalafila pode causar: infarto do miocárdio, AVC, perda súbita de visão ou audição, priapismo (ereção dolorosa por mais de 4 horas), arritmias cardíacas e morte súbita.
A mistura com álcool potencializa os efeitos colaterais. A associação com energéticos cria uma tempestade perfeita — um vasodilatador brigando com uma taquicardia induzida por cafeína. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, “quando há consumo de álcool, energéticos ou drogas recreativas, a chance de arritmia e morte súbita aumenta muito”.
A perigosa normalização cultural
“Sabe qual é o segredo pra aguentar a noite todinha? Tadalafila, tadalafila.”
Esses versos de Alanzim Coreano e Os Barões da Pisadinha são apenas a ponta do iceberg. Uma busca rápida no Spotify retorna mais de cem músicas com referências ao medicamento. No Carnaval de Salvador de 2024, vendedores ambulantes já ofereciam “abará de tadala”.
O problema é que essa normalização tem efeitos reais. Jovens saudáveis passam a consumir a medicação preventivamente, criando uma dependência psicológica. Segundo a urologista Bianca Macedo, “o uso nesse contexto funciona principalmente para driblar a insegurança masculina. O problema é que isso gera uma crença de que só se consegue ter desempenho com o comprimido — e pode evoluir para disfunção erétil psicogênica real”.
É como criar a própria doença que o remédio deveria tratar.
Para o colega médico: o que levar para o consultório
Pílula técnica: A principal contraindicação absoluta é o uso concomitante com nitratos (nitroglicerina, isossorbida, propatilnitrato), devido ao risco de hipotensão grave. Pacientes com doença arterial coronariana instável, insuficiência cardíaca classe III/IV, AVC recente ou hipotensão basal devem ser avaliados com cautela.
O grande desafio atual é identificar o uso recreativo na anamnese. Jovens dificilmente relatam espontaneamente o consumo em contextos festivos. Vale perguntar diretamente sobre uso de “tadala” em festas, academias ou antes de encontros — usando a linguagem que eles usam.
A disfunção erétil em homens jovens é predominantemente psicogênica. Antes de prescrever, investigue ansiedade de desempenho, pornografia excessiva e expectativas irreais. Encaminhamento para psicoterapia pode ser mais eficaz que um comprimido.
Para quem está pensando em usar: o que você precisa saber
1. O remédio não vai te dar nada que você já não tenha. Se seu corpo funciona normalmente, o comprimido não vai criar super poderes.
2. A mistura com álcool é perigosa. Tontura, desmaio, queda brusca de pressão — e isso antes de qualquer atividade.
3. Energéticos aumentam o risco. Estimulante + vasodilatador = sobrecarga cardiovascular.
4. Você pode criar um problema que não existia. Dependência psicológica é real: seu cérebro começa a acreditar que só funciona com o comprimido.
5. Produtos sem procedência podem matar. Gomas e balas vendidas como “naturais” não têm garantia de nada.
O paradoxo da virilidade em comprimido
Existe algo profundamente irônico em ostentar uma caixinha de tadalafila como símbolo de masculinidade. O medicamento foi desenvolvido para homens que, por razões orgânicas, não conseguem ter ereção. Usá-lo sem necessidade é, de certa forma, admitir uma insegurança que o marketing esconde.
A verdadeira potência está em conhecer o próprio corpo, respeitar seus limites e buscar ajuda profissional quando necessário.
Informação de qualidade transforma cuidado—e cuidado transforma vidas.
Sobre o autor: Fernando Henrique Rocha Fontoura é médico formado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, especialista em Medicina de Família e Comunidade e Clínica Médica, com pós-graduação em Cardiologia pelo Hospital Albert Einstein (SP). É membro titular da Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM) e membro aspirante da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Atua na Clínica do Pantanal, em Coxim (MS).
Fontes: Anvisa, BBC News Brasil, Sociedade Brasileira de Urologia, Sociedade Brasileira de Cardiologia, Conselho Federal de Farmácia, Revista Brasileira de Medicina do Esporte.